varzinhaemfoco

Livros dão alma ao universo, asas para a mente, voo para a imaginação,
e vida a tudo
”. (Platão)

Resenhas – Kleiton Karvalho


À Sombra da Figueira

Autor: Vaddey Ratner

Restarão poucos de nós descansando à sombra de uma figueira-de-bengala”.

Resenha: Falar sobre “À Sombra da Figueira” não é uma missão fácil, pois é difícil traduzir em palavras todos os sentimentos e emoções que este livro nos desperta, que vão de tristeza e revolta à esperança. É uma história sofrida, mas, ao mesmo tempo, encantadora. As descrições atingem um alto nível de realismo e a linguagem é tão inteligente que às vezes parece poesia em prosa, escrita com uma delicadeza que dói a alma, ainda mais por se tratar de uma narrativa em primeira pessoa, sob a óptica de uma criança de apenas sete anos, Raami, que é forçada a passar por situações desumanas.

A lição que fica é a de que todo regime autoritário é cruel e um câncer a ser extirpado da sociedade, seja de direita ou esquerda. É revoltante a forma como os revolucionários tratam Raami e sua família, assim como os demais moradores, obrigando-os a trabalharem como escravos nos campos, mediante ameaças e torturas, tanto físicas como psicológicas. O que faz Raami, que teve poliomielite e tinha dificuldades de locomoção, se questionar: será que, segundo a profecia, realmente existiria uma árvore sagrada, cuja sombra se estaria seguro? Ou apenas existia o “cemitério” que estavam construindo na floresta, onde todos morreriam em uma vala comum? Será que a garota conseguiria voar livremente, assim como seu pai lhe prometera, libertando-se do sofrimento e vencendo os limites de seu corpo?

É triste imaginar que esta obra foi baseada em uma história real, a história da própria autora. Possivelmente existiram muitas Raamis, famílias que foram obrigadas a deixarem suas casas, mentirem sobre a sua origem, que foram separadas, crianças que viram seus pais morrerem, sendo levadas de um lado para o outro, lançadas em um mundo de violência, fome e incerteza, abandonadas ao limite do desespero onde a esperança mais parece uma canoa furada em meio a um tornado no oceano Atlântico.

Em suma, um verdadeiro diário de sobrevivência. Há relatos tão comoventes que talvez seja necessário providenciar mais de um lenço para conter as lágrimas. Apesar de toda barbárie, esta aventura nos conduz a um mergulho no autoconhecimento. Concluímos a leitura com a sensação de que não poderia existir um final mais adequado, belo e poético. Raami, sem dúvidas, voará eternamente em minhas recordações, pois esta é uma obra inesquecível.

Setembro de 2020 – Kleiton Karvalho




Última parada: Auschwitz

Autor: Eddy de Wind

Resenha: Neste “diário de sobrevivência” o autor e médico judeu Eddy de Wind, através de um personagem fictício chamado Hans, narra um pouco de suas experiências e atrocidades presenciadas em Auschwitz, um dos lugares mais terríveis da história da humanidade. Lá ele é separado de sua esposa Friedel, que vai trabalhar no Bloco feminino onde ocorrem cruéis experimentos médicos. Hans vive entre a angústia e o medo do que pode ocorrer à sua esposa e à rotina diária de fome, trabalho pesado, doenças e morte. A leitura fica um pouco cansativa no decorrer da história, mas bastante tensa nos capítulos finais. Quando os nazistas fogem do campo, próximo do fim da guerra, Hans – ou Eddy – consegue se esconder. Neste momento, ele encontra outros prisioneiros sobreviventes, com relatos igualmente assombrosos, como, por exemplo, uma ocasião em que crianças foram jogadas ainda vivas em uma vala para serem queimadas, após passarem pela câmera de gás. O desabafo de uma mulher também chamou-me a atenção:

“Eles fizeram mal o seu trabalho. Depois de pouco tempo, talvez uma hora, retornei a consciência. Estava na cova em meio às mulheres assassinadas. Ainda estava viva. Senti que algo tinha mudado em mim. Que precisava continuar a viver, que queria viver para contar isso, para convencer as pessoas de que isso aconteceu de verdade... Por vingança. Por minha mãe, por meu noivo, e por todos os milhões que foram assassinados. É um tema com variações: câmera de gás, enforcamento, afogamento, fome e mais. Experimentei a morte e posso contar, tenho que contar e farei isso.”

É Horrível e revoltante? SIM! Mas esse horror precisa ser dito. É necessário que o mundo saiba o que aconteceu para que os erros do passado não se repitam.

Junho de 2020 – Kleiton Karvalho